Falar de Colares é também falar do seu vinho. Uma história com vários séculos, profundamente ligada à terra, ao mar e às populações que aprenderam a cultivar a vinha num território onde a areia e os fortes ventos atlânticos poderiam parecer, à primeira vista, inimigos da viticultura.
Não existe uma data conhecida para a plantação das primeiras vinhas na região. Sabe-se, no entanto, que já no foral de Sintra de mil cento e cinquenta e quatro existem referências ao cultivo da vinha. Cerca de um século depois, em mil duzentos e cinquenta e cinco, D. Afonso III concedeu o Reguengo de Colares a Pedro Miguel e Maria Estevão, ficando estes obrigados, entre outras condições, a plantar vinhas.
A importância da produção vinícola foi crescendo. No início do século XIV existiam adegas e vinhas em Sintra e nos seus arredores e, segundo alguns cronistas, durante o reinado de D. Fernando I terá ocorrido um primeiro movimento de exportação de vinho. Colares afirmava-se então como uma zona agrícola de importância significativa.
Mais tarde, durante a época das grandes viagens marítimas portuguesas, o Vinho de Colares também ganhou o seu lugar na história. Documentos relativos ao abastecimento das naus que partiam para a Índia revelam a preferência por este vinho. Em mil quinhentos e vinte, D. João de Barros fazia igualmente referência ao vinho produzido nesta região.
Mas um dos capítulos mais extraordinários desta história aconteceria no século XIX.
Quando a filoxera devastou grande parte das vinhas europeias, as vinhas de Colares conseguiram resistir. O segredo estava debaixo dos pés: a areia.
Os terrenos arenosos junto ao litoral dificultaram a progressão do insecto responsável pela destruição das raízes das videiras. Colares conservou, assim, vinhas em pé-franco, isto é, videiras que crescem sobre as suas próprias raízes, sem necessidade de enxertia em porta-enxertos americanos.
Ainda hoje esta paisagem vitícola é absolutamente característica. Junto ao Atlântico encontramos as chamadas vinhas de “chão de areia”, protegidas dos fortes ventos marítimos por paliçadas de canas. Para plantar uma videira é necessário chegar, através da camada de areia, ao terreno argiloso existente em profundidade.
É neste ambiente particular que encontramos duas das castas mais emblemáticas de Colares: a Ramisco, associada aos vinhos tintos, e a Malvasia de Colares, ligada aos brancos. O oceano, o clima, os solos e as técnicas tradicionais de cultivo ajudam a conferir aos vinhos características muito próprias.
A importância deste património viria a obter reconhecimento oficial no início do século XX. Colares tornou-se Região Demarcada em mil novecentos e oito, passando a proteger uma tradição vitivinícola cuja história já se contava, então, em vários séculos.
A própria paisagem conta essa história: a vinha rasteira sobre a areia, as canas utilizadas como protecção contra o vento, a proximidade do mar e o trabalho manual exigido por este tipo de cultivo criaram uma relação muito particular entre as populações e o território.
Mais do que uma bebida, o Vinho de Colares representa por isso uma parte da memória desta região.
Sobreviveu ao passar dos séculos, às transformações da agricultura e até à praga que destruiu grande parte da vinha europeia.
E continua a nascer num dos cenários mais improváveis para uma vinha: entre a Serra de Sintra e o Atlântico, praticamente sobre a areia.
Uma história de resistência que faz do Vinho de Colares não apenas um produto da região, mas também uma parte muito especial do seu património e da sua identidade.
Fonte original: Rádio Clube de Colares